Estado laico e educação

Conversando com minha esposa hoje, acabei de descobrir um problema seríssimo que tive em minha educação primária, numa escola particular que eu achava super boa e que agora percebo que tinha um problema gravíssimo.

Primeiro preciso explicar que sou cristão evangélico, mas que há um ano e meio consegui conciliar minha fé com a evolução dos seres vivos. Fazer isso não é tão difícil quanto eu pensava, mas as consequências em termos de compreensão do mundo em que vivo foram revolucionárias.

Desde então estou devorando fascinadamente inúmeros documentários sobre a evolução da vida, documentários dos quais eu corria quando era jovem hahaha. Sério, eu perdi a conta de quantos já assisti no último ano. Como a evolução da vida andou lado a lado com a transformação da Terra, também estou aprendendo muita coisa sobre as eras do nosso planeta.

Então chegamos ao dia de hoje, em que comento com minha esposa se ela sabia que a Terra tinha virado no passado longínquo uma bola de neve gigante, totalmente coberta por gelo. Ela disse que sim, que tinha aprendido na escola. Contrariado por ela já saber algo que eu descobri só aos 34 anos, fiquei perguntando se ela não estava só falando das eras do gelo, mas não era isso. Ela realmente sabia.

Então fiquei pensando: mas como eu não aprendi isso no Ensino Fundamental então? E minha esposa matou a dúvida a pau: “Sua escola era cristã e tinha ensino religioso, não é?”

A escola era católica, e tinha ensino religioso sim.

Mais do que ensino religioso, ela também fazia missas uma vez por mês. Ainda durante o período das aulas, todos os alunos eram levados para a capela da escola, onde um padre ministrava a eucaristia. Eu, como evangélico, ficava muito incomodado com as várias estátuas de santos da capela. Eu sabia que os católicos veneravam santos. Por muito tempo apenas me deixei ser levado para as missas, até que lá para a 5ª série eu disse que era evangélico e não queria mais ir. Desde então passei a ficar sozinho na sala de aula por uma hora toda vez que tinha missa na escola.

À parte essa experiência bem incômoda e meio isolacionista das missas, o que mais está me perturbando hoje é saber que uma escola privada, boa, tivesse se recusado a ensinar muito sobre evolução e sobre as eras geológicas do planeta Terra. A quantidade de associações e novas compreensões que eu estou tendo nestes últimos dois anos é enorme, só porque comecei a levar a sério a evolução da vida e a idade do planeta em bilhões de anos. Chego a achar isso criminoso. Minha família estava pagando caro por uma educação boa, e esse conhecimento básico me foi negado por “convicções religiosas”.

Aí eu penso nos outros problemas que o país está tendo por causa dessa onda evangélica que prega o amor de Jesus mas também diz “bandido bom é bandido morto”.

Que geração de brasileiros essa educação cristã vai gerar seguindo essa forma de tratar ciência, conhecimento, política, sociedade e até mesmo empatia com o próximo?

 


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Escravidão romana e discurso da Greta Thunberg

Acabei de ler a carta de Filemom da Bíblia. Faz muitos anos que li pela última vez. Nesse meio tempo, despertei minha consciência política e venho tentando enxergar como praticar essa característica que está entre as mais fundamentais do ser humano: o fazer político, esse ato diário.

Pois bem. Lendo Filemom, acabei de perceber o aspecto e a habilidade altamente políticos da carta. Meu Deus, gente, Paulo era um Lula da vida.

Essa carta é quase um tratado de política. O assunto é escravidão, numa sociedade que nem sonhava em direitos humanos. Paulo está lidando com uma situação extremamente difícil: devolvendo um escravo foragido (e recém-convertido ao cristianismo) ao dono, que também é cristão, amigo pessoal do próprio Paulo, mas é um cidadão romano e portanto delicado de lidar.

Eu acho abismalmente tenso e interessante como Paulo não confronta a escravidão em termos claros em nenhum momento na carta, mas usa de argumentação e posicionamento moral assertivo para efetivamente pressionar o amigo a receber o escravo fugido. Mais do que isso: a construir uma relação não só digna em termos trabalhistas mas solidária, empática e fraterna em termos humanos.

Essa carta é extraordinária. Ainda mais quando se pensa no custo político que uma confrontação direta teria. Custo político pessoal com esse cidadão romano, e público com a eventual divulgação do seu conteúdo em uma igreja nascente e imersa em perseguição religiosa por parte dos romanos (lembre-se que a carta chegou a nós 2000 anos depois, então de fato foi divulgada hahah).

Isso me faz pensar no discurso que a jovem Greta Thunberg fez na ONU sobre aquecimento global e a irresponsabilidade dos governos atuais. Particularmente me fez pensar na forma como tem gente do próprio movimento ambientalista descendo a lenha na menina.

Será que teremos que olhar para um texto religioso (de todos os lugares, possíveis, a Bíblia!), para aprender mais sobre política? Para entender uma forma política melhor de lidar com as contradições do movimento que a Greta causou??

Eu poderia falar muito sobre isso, mas vou deixar a provocação por aqui. Não é todo dia que um discurso de 2000 anos atrás de uma sociedade escravista tem algo a dizer à nossa sociedade moderna iluminista. 

 


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Cristianismo no Brasil e as polêmicas políticas

Praticar uma espiritualidade cristã autêntica e ao mesmo tempo pensar criticamente a vida, as relações humanas e os vários conhecimentos atuais não é uma tarefa fácil. Mas vira e mexe a gente consegue colher lições dessa espiritualidade que extrapolam a religiosidade fechada dentro das igrejas.

No cristianismo, a peça chave pra isso é a humildade de sempre estar disposto a ser confrontado pela palavra de Deus, que quer ajudar a gente a deixar para trás o que nos atrapalha e quer nos ver crescer como seres humanos. Outra peça importante é entender que se uma lição espiritual não está trazendo vida em abundância para você e para os que lhe rodeiam, essa lição não vem de Deus.

Exemplificando isso, acabei de ler uma tradução mais saudável (e por isso mais sagrada) de um trecho bíblico polêmico. Ele fala sobre as relações entre maridos e mulheres. Primeiro veja esta tradução clássica:

“Igualmente vós, maridos, coabitai com ela com entendimento, dando honra à mulher, como vaso mais fraco; como sendo vós os seus coerdeiros da graça da vida; para que não sejam impedidas as vossas orações.”
1Pedro 3:7 ARC
https://bible.com/bible/212/1pe.3.7.ARC

Agora veja esta tradução mais saudável:
(Original está em inglês, que eu vou traduzir para o português.)
“O mesmo vale para vocês maridos: sejam bons maridos para suas mulheres. Honrem-nas, apreciem-nas. Como mulheres, elas não possuem alguns dos seus privilégios. Mas na nova vida da Graça de Deus, vocês são iguais. Portanto tratem suas esposas com igualdade para que suas orações não caiam por terra.”

Original em inglês:
“The same goes for you husbands: Be good husbands to your wives. Honor them, delight in them. As women they lack some of your advantages. But in the new life of God’s grace, you’re equals. Treat your wives, then, as equals so your prayers don’t run aground.”
1 Peter 3:7 MSG
https://bible.com/bible/97/1pe.3.7.MSG

Olhando o tempo histórico em que a Bíblia foi escrita (patriarcado pegando pesado), fica claro o porquê do fraseamento da tradução clássica, mais literal. Mas olhando para a intenção do texto (que pode ser confirmada por outras partes da Bíblia), não é difícil perceber que a segunda tradução é melhor. A própria Bíblia explica isso, falando para não confundirmos a *letra* do texto com o *espírito* do texto.

Presta atenção porque isso aqui é o ponto inteiro deste post: o *espírito* da Bíblia e da espiritualidade cristã é o de uma vida abundante, e para TODOS. Uma vida cada vez mais VIVA do que já é. Se o resultado da sua atuação cristã na sociedade não está gerando isso, você está fazendo algo errado.

A vida abundante é o objetivo, o amor sacrificial é a ética de trabalho e o discipulado de Jesus Cristo é o meio de realizá-lo. Se você entende isso e lê a Bíblia sob esse prisma, se você vive sua espiritualidade cristã sob essa ótica, a resposta para TODAS essas polêmicas políticas do Brasil se tornam imediatas. E você percebe que Deus tem um lado muito claro nessa história toda.

Deus tem lado, mas o inimigo não são as pessoas. São as relações humanas e os problemas que geram MENOS vida abundante para TODOS. Não só para ricos, não só para pobres, mas para todos. O inimigo são as práticas e formas de pensar que empobrecem a forma de viver das pessoas. A Bíblia é bem categórica: isso NÃO VEM DE DEUS.

Deixo esta mensagem para todo cristão brasileiro que também se preocupa com o futuro do país e quer participar da sua construção.

 


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Sobre a tirania do hedonismo

A melhor coisa de você arriscar questionar e não se refugiar em explicações seguras da realidade, até mesmo em relação à sua fé, é que se houver valor e verdade no que está em questão, você redescobre lições tão pertinentes que lhe chegam de uma forma até violenta.

Uma que me traz dificuldades enormes atualmente é o meu hedonismo. Aos 35 anos, eu desenvolvi uma vida e uma rotina bastante prazerosas. Algo que me soa uma paga de tudo que já sofri no passado. Mas já fazem alguns anos que tenho dificuldades de controle sobre minha busca de prazer. Frequentemente é essa busca que me controla e não o contrário. Você não tem ideia de quantos problemas isso me traz e, ironicamente, quanto sofrimento me causa.

Aí nesse contexto eu leio isso aqui:

“Já que Jesus passou por tudo o que estão passando e até mais, aprendam a pensar como ele. Considerem seus sofrimentos como se estivessem sendo desmamados daquele velho hábito pecaminoso de sempre buscar e esperar conseguir tudo o que deseja. Assim você será capaz de viver seus dias livre para buscar o bem que Deus quer para você ao invés de ser tiranizado por aquilo que você deseja.”
(Carta de 1 Pedro, 4:1-2)
https://bible.com/bible/97/1pe.4.1-2.MSG

Quando eu vejo a dificuldade do ser humano em lidar com seu hedonismo em todas as escalas da vida, seja o simples indivíduo viciado em algo, as nações sendo incapazes de ser solidárias internamente e de dividir um pouco da riqueza para que não haja tanta violência, ou até mesmo a humanidade destruindo as suas condições de existir no planeta no futuro (tudo só para manter seu estilo de vida presente…) Quando vejo tudo isso, me assusto com as dúvidas que tenho sobre a relevância da minha fé.

A mensagem do Evangelho de Jesus é mais relevante do que nunca.

 


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Migrando do Facebook para o WordPress

O último post do blog foi feito em 2017.

Atualmente eu faço quase tudo no Facebook. Notei esses dias como estou escrevendo cada vez mais textos originais. Porém, como eu posto tudo no Facebook, eles acabam se perdendo no meio de tantas notícias políticas que eu fico redirecionando para informação pública.

Vou tentar escrever tudo o que é original por aqui. Se você está lendo este post e incentiva essa iniciativa, deixe um comentário! Pode ser no Facebook também, onde vou compartilhar o link de tudo o que escrever aqui de qualquer forma hahahah.

o/

 


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Cultura, polêmicas e Davi pelado

Vocês percebem um padrão nas polêmicas de opinião pública rolando no Brasil ao longo dos últimos anos?

No princípio, era a apatia… Dane-se a política, danem-se as eleições, direitos LGBT, desigualdade étnica, arte, e tudo o mais. Então, por algum passe de mágica incrível, as pessoas “despertaram” e começam a se importar com um monte de coisa há 4 anos. Em seguida, vários tiozinhos que sempre exerceram a sua profissão ou ativismo ou whatever, sem serem incomodados, fazem a mesma coisa de sempre mas dessa vez chamam a atenção da opinião pública. Aí os demônios internos brasileiros são liberados, e o pesadelo começa… Histeria pública, revolta e linchamento nos mais variados graus… Do virtual ao muito, muito real meu amigo.

A última polêmica foi a peça artística com nudez no MAM, e como está dando o que falar, não?

Como um entusiasta das grandes mudanças que às vezes rolam na sociedade, por um lado eu tenho uma esperança enorme de amadurecimento da opinião pública *média devido ao grau intenso dessas discussões, mas por outro também me encho de um profundo desânimo com o nível de ignorância, agressão e intransigência da opinião pública corrente, geralmente hipócrita.

Crise social também é oportunidade de crescimento e amadurecimento, certo? Certo. Certamente vai ter muita gente que por força das discussões que tem na arena social, vai se informar mais a respeito daquilo que condena com tanta veemência.

Mas precisamos reconhecer uma tragédia… O problema do Brasil ser um país sem educação, sem cultura, sem maturidade política, etc e etc, é que quando o desafio da vida bate e pede de nós uma mentalidade superior em relação à questão que surgiu, o amadurecimento não rola como um processo razoavelmente contido e civilizado. Rola de maneira dúbia em meio à violência social, ao caos que surge de um debate polarizado e extremamente agressivo, inquisitório, maniqueísta e reducionista.

Esse é o preço de nunca termos feito nossa lição de casa, em termos de educação, seja a que é feita nas escolas, seja a que nós temos que continuar fazendo por conta própria depois.

Cultura não é um termo chique de gente esnobe ou elitista… É fruto de muito esforço de educação própria e dos nossos filhos. Sem cultura, a sociedade se empobrece e se torna ignorante. E vai continuar dividida entre gente que olha a escultura do Davi pelado de Michelangelo e vê uma grandiosidade e beleza indescritíveis, e gente que olha e vê pornografia.

Pra saber mais sobre o Davi pelado, veja o link abaixo.

https://pt.wikipedia.org/wiki/David_(Michelangelo)


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Revelação

Revendo meu histórico de posts do Facebook nos últimos meses (e a reação de muitas pessoas a certos posts que coloco aqui para estimular um pensamento mais independente e abstrato), fiquei meio chocado com uma certa revelação.
Acho que eu estou finalmente entrando num estado de aceitação da tragédia que é a impossibilidade de que a maioria das pessoas de uma nação inteira se emancipem em seu pensamento e se libertem dos condicionamentos ideológicos.
É difícil para um idealista como eu, mas uma hora não tem como negar: por décadas ou mesmo séculos, parcelas muito grandes da população brasileira continuarão tendo a sua compreensão do mundo dominada por indoutrinamentos, continuarão com uma capacidade irrisória de pensamento crítico, incapacidade de escaparem de seus preconceitos e manipulações midiáticas, ideológicas, religiosas, etc etc. Sabe o Homer Simpson? Brasileiros hoje e amanhã são e continuarão sendo Homers Simpsons.
Mas ao mesmo tempo, olhando para as democracias mais avançadas (seria melhor eu dizer, menos viciadas – “menos piorzinhas…”), vejo que ainda assim é possível gerar essa fagulha da rebeldia na cabeça de cada vez mais pessoas. Não sei se isso vai atingir uma massa crítica que mude algo estrutural na nossa realidade, mas sempre (sempre) é positivo quando se aumenta o número de pessoas que percebem como os donos do sistema nos manipulam. Quando essas pessoas começam a desconfiar de todos a começar por si mesmos.
Porque se a gente não desconfia nem da gente mesmo de vez em quando, a gente não muda nunca.
Eu realmente espero que cada vez mais pessoas sejam capazes de se identificar e cantar com coragem o refrão da famosa música: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.”

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